
início desta
página
página
anterior
"Nas minhas horas de lazer, que são muitas, eu repassei o meu caso. E pensei sobre o juízo que o mundo da ciência, da qual eu mesmo não me considero mais parte, deverá fazer a meu respeito. Mesmo um mercador de lã, afora comprar barato e vender caro, pensa em outras coisas também. Nas providências para que o comércio de lã corra sem empecilhos. A prática da ciência me parece exigir notável coragem deste ponto de vista. Ela negocia com o saber obtido através da dúvida. Arranjando saber a respeito de tudo para todos, ela procura fazer com que duvidem. Ora, a maior parte da população é mantida pelos seus príncipes e donos de terra, numa neblina cambiante de superstições e palavras velhas que encobrem as maquinações desta gente. A miséria dos muitos é velha como as montanhas. O nosso recurso novo, a dúvida, encantou o grande público. Ele arrancou o telescópio das nossas mãos para apontá-lo para os seus carrascos. Esses homens, egoístas e violentos, sentiram logo que o olho da ciência pousou em uma miséria milenar mas artificial, que obviamente poderia ser iluminada através da eliminação deles. Eles nos cobriram de ameaças e ofertas de suborno irresistíveis para as almas fracas. Mas nós continuaríamos a ser cientistas se nos afastássemos da multidão? O movimento dos corpos celestes tornaram-se mais claros, mas os movimentos dos poderosos continuam imprevisíveis para seus povos. A luta pela mensuração do céu foi ganha através da dúvida. E a credulidade da dona de casa romana fará com que ela perca sempre de novo a sua luta pelo leite. A ciência está ligada às duas lutas. A humanidade, enquanto tropeça nessa neblina milenar cambiante das superfícies e palavras velhas, ignorantes demais para desenvolver plenamente suas forças, será incapaz de desenvolver as forças da natureza que vocês descobrem (os cientistas). Vocês trabalham para quê? Eu sustento que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana. E se os cientistas, intimados pela prepotência dos poderosos, acham que basta acumular saber por amor do saber; então a ciência pode ser transformada em aleijão e vossas máquinas serão aflições, nada mais. Com o tempo, é possível que vocês descubram tudo que há por descobrir e mesmo assim vosso avanço será para longe da humanidade. O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que, ao grito alegre de quem descobriu uma coisa nova, responda um grito universal de dor." Enrico Fermi. (Prêmio Nobel de Física em 1938.) |
início desta página
página anterior