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Publicações em cidadania da Escola de Mestres

Severinos

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     Severino trabalha como faxineiro num prédio aqui perto... Mal sabe assinar o próprio nome... Ficaram sabendo que ele gastava água demais quando lavava os carros dos condôminos... Quando indagado, ele ficou surpreso diante do pedido de economia de água... E foram necessários pelo menos vinte minutos de penosas explicações até chegarem à conclusão de que ele não sabia que a água era paga... (Nem na "terra dele" nem no lugar onde ele estava morando, ele jamais havia pago conta de água...)

     Perguntaram a Severino se ele gostaria de voltar a estudar... Estudar? Ele quase não se lembrava da última vez que havia feito ou cogitado fazer tal coisa. Não se mostrou nem um pouco receptivo. Alguém chegou a propor a alguns condôminos que dessem uma bolsa de algumas dezenas de reais a Severino caso ele decidisse voltar a estudar. Os moradores elogiaram a sugestão... Acharam-na muito digna... Teciam comentários eloqüentes na portaria enquanto se questionavam, e alguns bravamente se arriscavam a indagar publicamente:

"Por que insistir em que ele estude se ele mesmo não quer?"

"Não é melhor dar só um "aumentinho"? Afinal de contas, se ele, um dia, tirar o segundo grau, poderá até querer sair do prédio para trabalhar em outro lugar..."

     E não duvido nada que um deles, o Dr. Euzébio, de cima da sua invejada praticidade, tenha observado:

"Pra que estudar? Eu colava à beça e fiquei rico! Se precisar, a gente compra um diploma pra ele..."

     Talvez esta última frase contenha todo o porquê deste artigo... Euzébios e Severinos votam... A maior prova da existência deles é a eleição de Nayas e Hildebrandos para decidir o destino de nossas vidas. Os Euzébios enlouquecem a fúria capitalista das agências publicitárias com suas cifras para fazer com que os Severinos, como eles, votem com alegria em quem, mais cedo ou mais tarde, levará ambos para um caminho sem volta...

    Mas há um terceiro personagem nesta história: o Sr. Apanagildo. Enquanto os Euzébios decidem e os Severinos endossam, Apanagildo não quer se aborrecer e não se mete nisso... De vez em quando Apanagildo xinga alguns políticos e anula o seu voto...

    Severino, Euzébio e Apanagildo somos todos Severinos... O Severino tem medo do Euzébio, o Euzébio tem medo do Apanagildo e o Apanagildo tem medo de todos nós... Quem tem medo não tem tranqüilidade para pensar... Por conta disso, compramos nossa paz por alguns dias. Cercamos nossas casas de grades e fazemos de conta que coisas como estelionato, roubo do dinheiro público, estupros e chacinas, apesar de terríveis, são normais...

     Severinos somos ingênuos... Não conseguem perceber que suas atitudes (ou a ausência delas), de fato, mais cedo ou mais tarde, aparecem como estranhos desígnios de Deus, corroendo a qualidade de nossas próprias vidas...

     O futuro das atitudes de todos se transforma em vento, que todos juramos não existir porque não podemos ver... Enquanto a escola encena seu papel de mera formalidade para a não segregação do indivíduo pela sociedade, os Severinos faxineiros crescem em número. Parecem mais a bandeira que, em meio à guerra do dia-a-dia, ao rufar daqueles ventos caóticos, sinaliza para aqueles que deveremos extinguir... Talvez os Euzébios extingam os Apanagildos, ou vice-versa...

    Quem sabe o preço da nossa coragem seja a não extinção daquele exército de quase-Severinos que chamamos de "nossos filhos"?

Quando não somos bons o suficiente para provocar a mudança, certamente não a merecemos...

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