Orientação Pedagógica

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Orientação Pedagógica da Escola de Mestres

Discutir educação é extremamente prejudicial à saúde

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Discutir educação é extremamente prejudicial à saúde...

      Mais correto seria dizer "à saúde individual". Discutir sobre educação, quando se faz seriamente, invariavelmente transforma estranhos, ou mesmo antigos bons colegas, em inimigos. Em contrapartida, é indispensável para o bem da sociedade, para o futuro de todos nós. Isso acontece por vários motivos, a saber:

a) Não estamos acostumados a discutir... Passamos muitos anos, em períodos semi ou completamente ditatoriais, aprendendo a como não interferir nas atitudes que os outros estavam encarregados de tomar sobre nossas vidas. Com isso, chegamos ao clímax de pensar que coisas como reunião de condomínio, associação de moradores, Câmara de Deputados são para "gente encrenqueira" ou "desocupada" ou ainda "oportunista". A crítica, construtiva ou não, deveria ser recebida com serenidade e simplesmente examinada sem preconceito para em seguida ser assimilada ou descartada. Em lugar disso, acostumamo-nos a ver nela o algoz indomável que até pode ser capaz de roubar-nos o emprego, o cargo, a função ou o conforto de fazer sempre a mesma coisa sempre do mesmo jeito sem nunca se precisar indagar quando?, onde? ou por quê?...

b) Quando se fala de educação, todos nós temos, direta ou indiretamente, alguma ou muita culpa. E poucos entre nós acham que esse assunto é pelo menos tão relevante quanto os resultados dos últimos jogos do campeonato estadual de futebol.

c) Muito mais do que exportações, PIB, câmbio e bolsa de valores, o grau de alfabetização e a capacidade para compreender em que mundo tecnologicamente, socialmente e ecologicamente vivemos são o que realmente define o patamar de desenvolvimento em que nos encontramos. Sinto muito com relação aos que pleiteiam provas sobre isso. Isso para mim é um axioma. Não é passível de discussão. Ou você aceita como verdade, ou rejeita sumariamente. Romanticamente, poderia dizer que há evidências de que surpreendentemente nascemos para aprender, muito mais do que para produzir índices econômicos... Para quem acredita em princípios, talvez este argumento baste.

Educação e Informação

      Na maioria das vezes dar educação se confunde com dar informação. A priori, o sonho que temos é colocar os nossos filhos no mais caro dos colégios. Para isso, dispor-nos-emos a trabalhar dia e noite se necessário a fim de cumprir com dignidade nossos compromissos.
 
      Pois é... O colégio é o principal responsável pela informação formal que o cidadão adquire. Informação esta que só consegue virar educação se o resto da sociedade, principalmente a família, estiver caminhando, decidindo, discutindo, evoluindo lado a lado com o aluno. 
 
      Mas quem trabalha dia e noite não tem tempo para fazer isso!

      É verdade... Neste caso, talvez seja preciso trabalhar menos... Mas trabalhando menos talvez não dê para pagar o seguro dos dois carros... Pensando bem, para que estudar num colégio tão caro? 
 
      A partir de então, perde-se quase que completamente o fio da meada porque de verdade muitos de nós questionam a utilidade da informação que se tem na escola. E quando é necessário decidir entre a mensalidade da escola e o seguro do carro novo...
 
     Este descrédito com a informação formal adquirida estende-se como uma lava sobre as populações de mais baixa renda. Isso porque, ao contrário do pai da classe média até a alta, quem ganha alguns salários mínimos não pode escolher a escola onde seu filho vai estudar. Por isso, a sociedade, formada por professores, funcionários, políticos e todos os outros cidadãos, passa a ter uma parcela de culpa muito maior sobre o destino de crianças e adolescentes. Estas crianças e estes adolescentes, sem alternativa, passam a receber da escola a única ração de informação ( e a maior parte da parcela de educação) que os promoverá ou os condenará precocemente à cidadania ou à marginalidade plenas.
 
     Em qualquer classe social, à parte obviamente um pequeno porcentual, os pais poderiam ser divididos em dois grandes grupos. Um, onde se acredita cegamente que "estudar" é a única maneira de fazer seu filho vencer na vida - acompanham as atividades de seus filhos, muitas vezes sem saber exatamente o que elas significam e sem questionar aspectos como utilidade, dificuldade etc. Outro, onde se acredita "cegamente" que estudar é uma bobagem, mas mantêm o filho na escola (quando o fazem) porque não querem ser discriminados socialmente.

Educação ou Informação?

      Já faz algum tempo um consenso parece ter surgido no meio acadêmico apontando para o fato de que a informação dada na escola precisa estar em sintonia com o dia-a-dia do aluno de tal forma que ele consiga usá-la para o que ela originariamente se propõe, que é prever ou explicar com um grau aceitável de eficácia os fenômenos que o cercam.
  
     Ou seja, não é tão importante saber balancear uma reação por oxi-redução se o aluno sequer consegue identificar reações químicas importantes e elementares no seu dia-a-dia.  Da mesma forma, não é tão importante saber resolver uma equação trigonométrica se o aluno não é capaz de calcular os juros da prestação do novo aparelho de som que quer comprar, não sabe como calcular a área do seu apartamento ou, ainda, diante de dois horários, digamos, 8h20min30s e 15h12min50s, não é capaz de calcular, sem grande dificuldade, o intervalo de tempo decorrido entre eles.  
 
      Paralelamente surgiu no cenário deste auto um político querendo ver todos felizes e um profissional excitado com uma idéia revolucionária:

      Não é mais importante saber balancear por oxi-redução, não é mais importante a equação trigonométrica, tampouco a análise sintática... Também não é importante calcular a área de coisa alguma e muito menos saber calcular a distância temporal entre dois eventos... O importante é que o cidadão seja feliz... E o que faz o aluno infeliz? Vejamos... A prova! Isso... A prova não prova nada! Vamos tirar a prova! A prova é uma maneira excludente de avaliar o aluno... O que mais faz o aluno infeliz? Vejamos... A reprovação... Não há mais reprovação... Vamos avaliar o aluno holisticamente, como um todo... E como um todo, de alguma maneira, sempre acharemos um jeito de deixá-lo mais feliz... Fora os conteudistas! Conteúdo é coisa de gente doente! Estamos na vanguarda da Educação!

      Esta filosofia, que parece uma caricatura mas lamentavelmente não é, levou nossas escolas públicas à falência... Falta dinheiro? Não. Faltam professores? Nem tantos. Falta conteúdo. Falta disciplina. Falta ordem. Falta família. Sobram prédios, pessoal, papéis, propagandas. Falta educação. Falta informação. 
 
      Onde está o político? Vangloriando-se por ter reduzido praticamente a zero a taxa de reprovação no seu município. (Como se taxa de reprovação, por si só, avaliasse alguma coisa. Fosse assim, a maior parte dos melhores cursos da UFRJ e UERJ deveriam ser considerados um lixo e os melhores colégios religiosos certamente seriam os piores do país.)
 
      Onde está o profissional? Escondido atrás do título que conseguiu a duras penas para dar credibilidade à sua tese. No fundo, eu ainda acredito que ele é bem intencionado e que ele mesmo é um grande ícone do processo de deterioração educacional que redundou na aplicação imponderada de seus métodos. De qualquer forma, sua comodidade (ou comodismo) é arada por aquele político com um salário razoável uma boa dose de estabilidade, estatus e renome.
 
    Onde estão os alunos? A maior parte deles descobrirão muito tarde que aquele simpático processo educacional indolor os mutilou. Informação de qualidade é a moeda com que realmente compramos nossa autonomia... Abrir mão dela é pular da biga para o solo da arena. Ser abalroado por carros, lanças e cavalos e ainda ser repudiado pela platéia que assiste a sua dilaceração com indiferença, desde que não atrapalhe o show. Uma outra parte, financiados pela própria família, serão atraídos pelas promessas de sucesso fácil... Comemorarão sua aprovação em vestibulares onde até os analfabetos passam e, sem qualquer capacidade de ocupar os bancos universitários, irão pleitear junto aos professores e departamentos, o mesmo processo indolor de "aprendizado" que os levou até lá. É certo que, mesmo nas Universidades-Clubes, há uma pequena minoria que se sobressai e enxerga a luz do sol após uma longa e solitária viagem até a superfície. Lamentavelmente, a grande maioria, diante de todo o seu despreparo profissional e distantes de sua função social, irão para a platéia aplaudir e continuar a carnificina.
 
      O MEC começou a cassar o reconhecimentos de uma série de cursos de matemática e letras no Brasil. A próxima etapa, esperamos que ocorra logo, englobará cursos de medicina e direito. A sociedade precisa compreender que Universidade e Shopping-Center precisam ser coisas diferentes. E o professor ou reitor que dá um diploma para um profissional sem a devida competência para exercer sua profissão é igualmente responsável por todos os erros e abusos nos quais, por conta desta má formação, ele venha incorrer.
A pergunta que fica é: por quanto tempo ainda vão se produzir jovens funcionalmente analfabetos nos cursos fundamental e médio do município e do estado? Que tipo de escândalo será preciso ocorrer para mostrar à sociedade que idéias como "não reprovação" e "prova não prova nada" (em lugar de "prova não prova tudo") são demagógicas e só servem para calar e segregar mais ainda a camada mais pobre da população?
 
      Enquanto professores, sonhamos com o dia em que todos terão uma educação uniforme e coerente a tal ponto que não seja preciso mais reprovar. Também queremos que nossos alunos aprendam as equações trigonométricas e saibam por que e para que elas são importantes na sua vida... Lutamos dia a dia para que este sonho se torne realidade... A informação é o melhor caminho para se chegar à educação. E reciprocamente. Entretanto, é preciso que nos conformemos com a fato de que o aprendizado JAMAIS será indolor... Aprender é modificar-se. E, desde a matéria mais bruta (vide a lei da Inércia, de Newton) até os campos magnéticos (vide Lei de Faraday), todos resistem bravamente à mudança... Mudar dói. E só os mais aptos realmente se perpetuam (vide seleção natural, de Darwin). Fugir da dor ou da dificuldade é rasgar o bilhete que nos habilita a interferir ordeiramente neste espetáculo indescritível do qual fazemos parte, que é a vida.


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