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Curiosidades, Anedotas, Charadas, Piadas, Enigmas

punhar

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Ela se chamava Noêmia.
Ele, Alcebíades.
Ela gostava de seresta.
Ele, de futebol.
Ela estava divorciada, tinha uma única filha já adulta e quase formada. Adorava ler. Falava um português impecável e com dicção hipnotizante. Não criticava quem falava errado (ou... “em desacordo com a forma culta”), mas cumpria o que para ela era sua obrigação: falar e escrever corretamente o seu idioma.
Ele era viúvo. Teve três filhos, mas um desencaminhou. Envolveu-se com drogas ainda cedo, e foi assassinado. Dos dois restantes, a menina se casou com um sargento do exército e eles vivem na fronteira do Brasil com algum país que Alcebíades não sabe bem qual é. O rapaz seguiu a profissão do pai. Alcebíades só lia as placas de trânsito e as manchetes esportivas. Só havia um paradigma em sua vida: se era pra fazer, ele fazia. Nem um suspiro de arrependimento, orgulho ou reflexão. Se ele precisasse falar alguma coisa, falava... com a clareza de uma britadeira. Se era para exigir o boletim dos seus filhos, ele exigia! Mas nunca sequer lera o que estava escrito lá. Boletim ou receita de bolo não eram muito diferentes para ele. Se estivesse escrito “APROVADO”, para Alcebíades já era o suficiente. Este princípio se aplicava ao trabalho, ao casamento, à paternidade, à escola e a todos os demais cenários na sua vida onde ele tivesse um papel a cumprir ou exigir o cumprimento.
Ela era professora. Professora por vocação. Fazia o que lhe parecia correto, mesmo que contrariando a ordem que lhe houvessem dado. Era um exemplo para todos: alunos e colegas de trabalho (exceto para o Estado, é claro). Mesmo aposentada e vitimada pelas nadagogias estatais, ela persistia. Continuava em sala. O Estado exigia que ela fosse assistente social, psicóloga e guerrilheira. Ela ignorava as políticas nadagógicas e ensinava a ler. Conseguia fazer isso com não mais que 5 ou 6 alunos por ano. Mas as vidas daqueles 5 ou 6 ela tinha certeza de que seriam diferentes. O Estado reclamava, esperneava, mas não podia mandá-la embora porque não havia muitas outras pessoas qualificadas e dispostas a suportar tanta pressão pelo salário que ela recebia.
Ele era motorista de ônibus. Se era para dirigir, ele dirigia! No que ele pensava? Difícil dizer. Alcebíades era correto. Praticidade à flor da pele. Tirando palavrões e interjeições, era homem de pouquíssimas palavras e, sinceramente, acredito que de pouquíssimos pensamentos. Até porque pensar era algo facultativo; não obrigatório. Portanto, se não era para pensar, provavelmente ele não pensava. Estavam numa época e região do Brasil em que os passageiros entravam pela porta de trás, recebiam uma ficha de plástico do cobrador e, ao saírem, pela porta da frente, precisavam pôr a ficha numa espécie de cofre. Só depois de depositada a ficha, a porta era aberta pelo motorista.
Noêmia estava numa viagem de visita a sua mãe, numa cidadezinha não muito pequena no interior do Brasil. Tudo a sua volta a enchia de encantamento e curiosidade. As duas galinhas amarradas no banco de trás e o porco que, solto, patinava pelo ônibus (nas freadas do Alcebíades) eram um espetáculo à parte.
Mas a figura do Alcebíades a incomodava. Motivos não faltavam...Ele dirigia soltando grunhidos (expressões ininteligíveis para quem era de fora da cidade). Seus comentários eram completamente desconexos e havia dirigido com uma truculência viking durante 80 minutos por uma estrada de terra num ônibus que certamente fora construído antes da invenção do amortecedor. Estava quente. Perdão... Estava muito quente.
Dois minutos antes de chegar ao ponto onde iria saltar, Noêmia já havia descartado a ficha de plástico, que já lhe parecia de chumbo, no cofrinho próximo à porta de saída.
Pararam para esperar umas vacas atravessarem a pista. Os dois minutos se transformaram em 10.
A uns 300 metros do ponto, já avistava sua mãe, que lhe reconhecera com um cintilante sorriso pendurado no rosto. Uma lágrima lhe veio aos olhos.
O ônibus parou.
- Senhor, a porta. Não vai abrir?
- Como? Perdão, poderia repetir mais devagar?
Alcebíades repetiu tão rápido quanto, mas muito mais alto.
- Perdão, mas eu não sou surda, eu só não entendi o que o senhor disse. Pode...
Alguns segundos intermináveis de perplexidade se derramaram sobre a cena. Sua mãe chorando de alegria do lado de fora. O vernáculo em prantos de agonia do lado de dentro. Aquele “punhou”, dilacerando impiedosamente a língua portuguesa, a havia “apunhoulado” pelas costas.
- Sim, pus. – Respondeu Noêmia, resignada.
Alcebíades desligou o ônibus e, projetando ainda mais a sua voz, tentou se fazer entender.
Atormentada por aquele pesadelo à luz do dia, conteve o tremor que já lhe ameaçava a voz e tentou explicar cadenciadamente:
- Eu a pus quando ainda estávamos lá atrás, antes da passagem dos animais...
Alcebíades desligou o ônibus. Um senhor lá de trás tentou explicar:
- Dona, fala pr’ele que a senhora punhou...
Uma senhora, que também estava ansiosa para chegar em casa intercedeu:
- Cebides, ela punhou a ficha. Abre a porta.
As pessoas começaram a comentar e um murmurar viscoso já confiscava o espaço ocupado pela atmosfera. Alcebíades levantou-se do seu assento e foi explicar pessoalmente à professora Noêmia.
Foi quando o mundo conheceu o desconcerto, o desvario e o desatino da ex-normalista:
- PUUUS! EU PUUUS A FICHA NA CAIXA!! Agora abra logo esta porta, por favor!
Não havia dúvidas. Noêmia perdera a paciência.
O problema é que as pessoas no ônibus se levantaram e começaram a se manifestar. O que. de início, era um ruído de fundo virou uma discussão dissonante e se tornava cada vez mais sufocante e entorpecente. Só se falava em “punhou” pra cá e “não punhou” pra lá. Alcebíades irritado, doido para voltar para casa e se livrar daquele ser extraterrestre que invadira sua vida repetiu, desta vez mais perto do que nunca, com brados e gestos como se estivesse num palanque:
A professora Noêmia, em estado de choque, com o rosto enlameado com poeira da estrada e cuspe de Alcebíades, não suportou golpe tão vil do destino. Nem a Inquisição Espanhola conseguira ser tão torpe. Noêmia esmoreceu. Intrépida sobre o patíbulo, encheu os pulmões de ar e, com o seu fôlego derradeiro, provocando uma justa trepidação no eixo da Terra, confessou:
- PU-NHEEEEEEEEI!!!!!!!!!!!!!!!!
Alcebíades, inabalável, voltou para seu lugar, abriu a porta e ligou o carro. Os restos mortais da professora foram conduzidos para fora do ônibus por familiares.
Ela só terminou de se dar conta da força daqueles acontecimentos alguns anos depois, quando parou para me contar serenamente sobre o verbo que havia mudado a sua vida.

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